23 de julho de 2010

A máquina e os retalhos da Chica

As vezes, a minha mãe proibia tantas visitas à casa da Chica, mas entendia, porque nos fundos da casa eu tinha o meu ateliê de roupas de bonecas confeccionado a mão com os retalhos dos tecidos presenteados pela Chica.
Adorava brincar de costureira, de criar modelos de roupas!
Mas a minha paixão de verdade era especular a casa e a vida da Chica. Dia e noite. Pois lá o meu campo de pesquisa era farto e a Chica era meticulosa, tinha mania de perfeição e eu daqui a pouco iria me tornar uma chata também. Chata no bom sentido é claro.
Se existia uma coisa que a Chica não permitia, era mexer na sua máquina, sequer sentar na sua cadeira. Área totalmente restrita à sua pessoa.
- Esta máquina nunca foi pro conserto, porque zelo e cuido como se fosse minha filha, isto eu sabia de cor, até que ajudava a zelar também. 
Os acidentes acontecem, um deles foi quando, sem querer é claro, derramei uma xícara de café em um vestido, e vi a coitada da Chica, desesperada com as mãos na cabeça, sem saber que rumo tomar na vida. Mas, o meu rumo eu sabia muito bem, em dois minutos eu estava em casa; pálida e desconfiada. Fiquei uma semana sem aparecer na casa da Chica. E só apareci porque ela mandou um recado para minha mãe me levar para provar meus vestidos. Não perguntei sobre o passado, mas ela rindo falou que eu não tive culpa e como era muito querida, se entendeu com a sua cliente. Fizemos as pazes e morta de saudades fiquei por ali mesmo a tarde inteira porque tinha muitas coisas para perguntar, muitas mesmo, tantas que não sabia por onde começar! 
Estava feliz e com a consciência em paz, ainda ganhei uma sacola de retalhos que ela havia guardado pra mim. Um presente caído dos céus, ferramentas para uma semana inteira. 
- Chica, como se chama o nome deste tecido?
- E este?
- E este aqui?
- Foi um vestido, uma saia ou uma blusa?
- Você já entregou?
Vasculhava o meu material de pesquisa a procura do mais bonito, e quando encontrava o interrogatório se estendia, pois daí eu queria saber de tudo! Dava uma olhada na fisionomia da Chica, imaginando se podia continuar ou não, e para quebrar o clima eu falava:
Chica, você quer café?
Tudo e qualquer coisa para a Chica não sair da máquina, mas a Chica respondia.
Não, pode deixar, preciso ir a cozinha.
Como eu sabia que ela demoraria, fui pra casa com a minha sacola.
Em casa mostraria para a minha mãe todos aqueles retalhos, um por um.
Ali eu sabia o nome de cada um, pra que foi utilizado, e de quem era!
Os dias se passavam quem me visse naquele vai e vem diria que no futuro eu seria uma grande costureira. 
Será mesmo?

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